10 dezembro 2010

Doninha

Foi anunciado no site da banda o final dos Da Weasel, banda de Almada que se iniciou em '93 com Pacman (Carlos Nobre) a convencer o irmão Jay Jay Neige (João Nobre) a pegar no baixo e ajuda-lo a fazer um projecto com pés no hip-hop mas a mente aberta para tudo o resto, especialmente se o resto incluisse rock,hardcore ou punk.
Os primeiros companheiros foram Yen Sung (hoje uma dj de renome no panorama nacional) e Armando Teixeira ( já na altura membro dos Bizarra Locomotiva, que deixou entretanto tambem, e responsavel entre outras coisas pelos projectos Balla e Bullet)
Apanhei-os logo ai, com o primeiro ep 'More than 30 motherf***s', do qual tenho uma copia original de 94, uma das ao que parece 700 que alguma vez se fizeram, o trabalho nunca foi re-editado.





 Ja os Da Weasel iniciaram ai uma trajectoria que no que toca ao sucesso foi sempre a subir. Criativamente, quanto a mim apenas um passo ao lado com 'Podes fugir mas não te podes esconder', trabalho menor de 2001 que entrava demasiado na onda das letras faceis e do rock pesado facção Limp Bizkit que na altura dominava as tabelas. Antes 'Dou-lhe com a alma' em 95,quando a banda tinha ja adquirido Quaresma para a Guitarra e Guilherme para a bateria, '3º Capitulo' em '97 (o seu melhor trabalho, ainda hoje, quanto a mim, ja sem Yen e com Virgul, na altura um miudo, ja la irei...) e 'Iniciação a uma vida banal (o manual)' de 99 traçaram um percurso do melhor que temos por ca em qualquer especie de expressão musical. A decisão de após o primeiro ep largar o ingles revelou-se acertada pois Pacman revelou-se um excelente letrista, um contador de historias urbano que sem ser vulgar não era demasiado complexo na escrita e conseguia passar a sua mensagem, advinhava-se que um dia chegariam as grandes multidões. Os sucessos foram aparecendo e as prestações ao vivo foram fazendo crescer a base de fãs. Nisto Virgul foi determinante. O miudo entrou timido com 16 anos, mas a sua influencia na banda foi crescendo na banda e trouxe algo suplementar tambem  as pretações ao vivo, não so porque era um contra-ponto mais ajustado a voz e presença de Pac do que Yen, mas tambem porque a sua presença fisica e postura em palco pareceu desde logo conquistar muitas miudas, e todos sabemos como isso ajuda as carreiras...
Em 2004 'Re-definições',um regresso inspirado à boa forma, lançou-os para o patamar mais alto do sucesso em Portugal, com vendas na casa da platina, casa cheias e festivais por todo o lado. Chegaram aos coliseus e festejaram a editar 'Ao vivo nos coliseus', depois em 2007 'Amor escarnio e maldizer' continuou o estado de graça e chegaram a esgotar o pavilhão Atlantico, num acontecimento que mais uma vez foi editado neste caso ate com um duplo dvd a acompanhar.
Os concertos por esta altura eram ja um tudo-em-um dos menos de 40 anos em Portugal, via-se de tudo, mas os Da Weasel sempre foram muito fortes ao vivo, mesmo quando os publicos eram mais pequenos, mais militantes, menos conhecedores so dos sucessos e mais dos momentos escondidos. Jay e um grande baixista, por exemplo, e o facto de serem uma banda com instrumentos deixou desde logo de parte um dos problemas habituais ao transpor sons mais hip-hop para o palco sem perder 'calor'. Foi nos concertos que fui arrastando cada vez mais amigos para esta causa. Estavamos la por exemplo no Sudoeste em que Virgul partiu a perna ao entrar com um mortal(?!) no palco ainda durante o dia ou em várias prestações patrocinadas pelas camaras municipais dos arredores do Porto antes das garotas sub 16 quererem ser a 'nina'. São a banda que mais vezes vi ao vivo, para cima de dez de certeza. Custa pois, 17 anos depois saber que os Da Weasel  acabaram. Fica o cheiro da doninha no ar...

Pedaço de Arte ( a preferida.)

O receio que eu queira o teu relógio 
O receio, quando te pergunto as horas sentado no passeio 
Com essa expressão não me consegues enganar, 
leio na tua cara tudo o que estás a pensar 
Na minha testa vês escrita a palavra perdido, 
mas qual de nós os dois será exactamente o mais esclarecido? 
Aquilo que a tua mente censura, é a expressão de uma cultura 
tentaram abafá-la mas ela perdura 
Tudo o que tu vês fazer e depois te limitas a repetir, 
sem sequer te dares ao trabalho de parar e reflectir 
Tudo o que te ensinam na privada, jaula dourada, 
onde por bons rapazes a menina foi violada 
Tudo o que a mamã – que a trata por você desde bébé - 
lhe disse sobre a escumalha, sobre a ralé 
Tudo isso é verdadeiro como um O.V.N.I. de Marte. 
Enquanto aquilo que eu te trago é um pedaço de arte 

É estranho mas eu apanho que algo em mim dá-te tesão 
e é tão difícil aceitar essa sensação. 
Imaginas por momentos como seria, 
se te aventurasses a fazê-lo 
Quem sabe um dia se conseguisses experimentar sem ninguém dar por nada 
Na volta davas uma queca bem suada. 
Deixava-te virada, estás a delirar, com certeza, 
Pensa só numa mistura dessa natureza 
Passam–te pela cabeça as ideias mais tontas 
Deixa as aventuras para a pocahontas 
Afinal de contas nem devias estar sozinha a esta hora 
Mas a tua amiga normalmente não se demora 
e agora só te apetece dar um grito, 
um breve momento passa a ser infinito 
vai com calma 
Não quero que tenhas nenhum enfarte. 
Relaxa e aprecia este pedaço de arte 

Eu não quero nada de ti, nem de mão beijada, 
Fiz-te uma simples pergunta, mais nada 
O preconceito espelhado na tua face 
foi suficiente para que eu desde logo me assustasse 
irónico, mas enojas-me mais do que eu a ti 
Bastou-me um segundo e logo, logo percebi 
Nasci ontem mas passei a noite acordado 
Conheço as pessoas, 
de facto sou licenciado numa escola a que nunca terás acesso
, 
nem todo o dinheiro do mundo chega para o teu ingresso 
Guarda o teu medo e segue lá o teu caminho 
só queria saber se ainda estava a dar o Mariño *
Hoje quero ir ouvir um som doce como uma tarte 
e deliciar-me com mais um pedaço de arte. 

Pequeno este pedaço mas com tudo o que eu preciso 
desde palavras e sons até mesmo um improviso 
Puro como água, doce como uma tarte 
Faz então a tua porque eu já fiz a minha parte 

*Jose Marino apresentava o programa Repto, na Antena 3, dedicado ao hip-hop.

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